A saúde mental é um componente indissociável do cuidado integral em oncologia, uma vez que o diagnóstico de câncer tem grande impacto emocional.
O medo, somado às incertezas e as mudanças na rotina, na autoimagem e nas relações familiares, pode trazer grandes consequências para o paciente e para o próprio tratamento.
A campanha Janeiro Branco tem como principal objetivo conscientizar as pessoas sobre a saúde mental e é um convite para os oncologistas olharem para os seus pacientes de forma mais acolhedora e humana.
A relação entre saúde mental e câncer
O diagnóstico de câncer não envolve apenas questões clínicas, é um evento emocional de grande impacto.
Segundo um estudo publicado na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, é comum que o paciente seja tomado por sentimentos de raiva, medo, angústia e autopiedade, além da sensação de ter perdido o controle em relação a sua vida.
Além disso, o processo terapêutico, que pode envolver cirurgias, quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, por exemplo, também intensifica os sintomas de sofrimento psíquico, com fadiga, náuseas, queda de cabelo e limitação funcional.
Tudo isso afeta diretamente a qualidade de vida e o prognóstico. Um artigo publicado na ESMO Open aponta que ansiedade e depressão estão diretamente ligados à aderência ao tratamento e podem reduzir a expectativa de vida do paciente com câncer.
Fatores de risco e sofrimento psíquico em pacientes oncológicos
O impacto do câncer na saúde mental varia entre os pacientes.
Contudo, alguns fatores podem intensificar a vulnerabilidade emocional, incluindo: o tipo e o estágio da doença, a presença de metástases, dor persistente, efeitos adversos severos do tratamento, problemas financeiros e a ausência de uma rede de apoio adequada.
Outro fator de risco para o bem-estar físico e emocional do paciente está relacionado com tumores visíveis.
Um estudo focado em casos de câncer de cabeça e pescoço, publicado no Psycho-Oncology, mostrou que alterações da imagem corporal estão associadas à ansiedade, isolamento social e piora na qualidade de vida.
Pacientes com histórico de transtornos psicológicos também são mais impactados pelo diagnóstico, bem como aqueles com histórico de abuso de substâncias, de acordo com o ESMO Guidelines Committee.
Estratégias de enfrentamento e suporte emocional
Um suporte focado na saúde mental faz grande diferença na forma como a pessoa enfrenta o adoecimento.
Estratégias de coping, como busca ativa de informação, espiritualidade, expressão emocional e apoio familiar, ajudam a fortalecer a resiliência e a adaptação à nova realidade.
O acompanhamento psicológico especializado, por sua vez, permite que o paciente realmente compreenda e organize seus sentimentos, ressignifique a experiência do tratamento e aprenda a lidar com o medo e a insegurança.
Os grupos de apoio também são estratégias eficazes para a saúde mental. Eles permitem que as pessoas compartilhem experiências semelhantes, sejam ouvidas e se sintam compreendidas e fortalecidas emocionalmente.
Os oncologistas também devem fazer a sua parte por meio de um atendimento humanizado. Muito mais do que suporte técnico, o médico deve valorizar a história de vida de cada um, ter uma comunicação empática e acolhedora, e respeitar as emoções do paciente e dos familiares.
Assim, constrói-se um ambiente seguro que favorece a adesão ao tratamento e a confiança em toda a equipe de saúde.
Cuidados integrativos para a saúde mental e física

Em oncologia, o cuidado precisa acontecer de forma integral, reconhecendo que o adoecimento não se limita ao corpo físico.
Cada vez mais práticas integrativas ganham espaço no acompanhamento dos pacientes para oferecer suporte complementar aos tratamentos convencionais.
Os exercícios leves e adaptados, por exemplo, contribuem para a mobilidade, controle da fadiga e fortalecimento da autoconfiança. A alimentação equilibrada auxilia na regulação metabólica, melhora da energia e percepção de bem-estar.
E, segundo artigo publicado na Nature Portfolio, técnicas de mindfulness, quando integradas à terapia cognitivo-comportamental (TCC), melhoram a depressão, a ansiedade, o estresse e a qualidade do sono.
Atividades criativas, artísticas ou de socialização também são benéficas para a saúde mental. Um estudo publicado no periódico Cancers, feito com 718 pacientes, apontou que pintura, dança e escrita têm impacto positivo no bem-estar psicológico. Quando feitas em grupo, as atividades ainda favorecem a sensação de pertencimento.
Essas práticas, somadas às estratégias de suporte emocional, fortalecem a autonomia, ampliam a percepção de cuidado e contribuem para um enfrentamento mais humano, ativo e emocionalmente saudável, mesmo diante das dificuldades inerentes ao processo terapêutico.
É responsabilidade do médico transcender o mero controle do tumor, dedicando-se à compreensão das experiências, emoções, dúvidas e expectativas do paciente.
Deve, igualmente, acolher e abordar o sofrimento em suas diversas dimensões: física, emocional, social e existencial.
O profissional que integra esse olhar fortalece sua relação com o paciente e contribui para uma experiência mais digna e acolhedora em todas as fases da doença, inclusive nos contextos de prognóstico limitado ou cuidados paliativos.
E isso não é importante apenas em janeiro. É algo que deve fazer parte da prática médica todos os dias.
Para saber mais sobre saúde mental do paciente oncológico, continue no nosso blog e leia Quimioterapia e bem-estar: como manter a qualidade de vida durante o tratamento?




