O radônio é um gás radioativo de origem natural que pode se acumular em ambientes internos e aumentar o risco de câncer de pulmão quando a exposição ocorre de forma prolongada.
Por não apresentar cor, cheiro ou sabor, sua presença passa despercebida. Assim, uma pessoa pode permanecer exposta durante anos sem saber que existem concentrações elevadas desse gás em sua residência ou ambiente de trabalho.
Embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco para câncer de pulmão, exposições ambientais também precisam ser consideradas nas estratégias de prevenção e saúde pública.
A relação entre radônio e câncer pulmonar é reconhecida por instituições internacionais e sustentada por estudos epidemiológicos realizados tanto com trabalhadores expostos a concentrações elevadas quanto com a população geral em ambientes residenciais.
A exposição merece atenção especial porque pode ocorrer dentro de casa, onde as pessoas passam uma parcela significativa do dia. Além disso, imóveis localizados em uma mesma região podem apresentar concentrações diferentes, o que torna a medição ambiental uma ferramenta importante para identificar o problema.
Compreender onde esse gás pode estar presente, como acontece a exposição e quais medidas ajudam a reduzir sua concentração amplia a prevenção do câncer de pulmão para além do controle do tabagismo.
O que é radônio e onde ele pode ser encontrado?
O radônio resulta do decaimento radioativo natural do urânio presente, em diferentes concentrações, nas rochas e nos solos. O gás também pode ser encontrado na água.
No ambiente externo, geralmente se dispersa rapidamente e permanece em baixas concentrações. Em construções fechadas ou pouco ventiladas, entretanto, pode se acumular e alcançar níveis consideravelmente superiores aos encontrados ao ar livre.
Residências, porões, subsolos, minas e determinados locais de trabalho podem apresentar maior exposição, principalmente quando estão em contato com solos e rochas que favorecem a liberação do gás.
O solo sob as construções é considerado uma das principais fontes de radônio em ambientes internos. O gás pode entrar nos imóveis por pequenas aberturas e se acumular principalmente em espaços próximos ao nível do terreno e com pouca renovação de ar.
Como não pode ser percebido pelos sentidos humanos, conhecer a concentração existente em uma residência ou ambiente profissional exige medição específica com detectores apropriados.
Entre os fatores que podem favorecer a entrada ou o acúmulo do gás estão:
- fissuras em pisos e fundações: funcionam como caminhos pelos quais o gás presente no solo pode penetrar nos ambientes internos,
- tubulações e passagens de cabos: espaços ao redor dessas estruturas também podem permitir a entrada do gás proveniente do terreno;
- ventilação insuficiente: menor renovação do ar pode favorecer concentrações mais elevadas, especialmente em ambientes subterrâneos ou próximos ao solo;
- materiais de construção e características geológicas: determinadas rochas, solos e, em menor proporção, alguns materiais podem contribuir para a presença de radônio.
Como o radônio aumenta o risco de câncer de pulmão?
Quando o radônio se desintegra, forma produtos radioativos que podem ser inalados e depositados nas células que revestem as vias respiratórias.
Esses produtos de decaimento emitem partículas alfa, uma forma de radiação ionizante capaz de provocar danos celulares e ao DNA. Quando a exposição ocorre repetidamente durante períodos prolongados, aumenta a probabilidade de alterações envolvidas no desenvolvimento do câncer.
A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classifica o radônio e seus produtos de decaimento como carcinogênicos para humanos, pertencentes ao Grupo 1.
Além disso, a combinação entre tabagismo e exposição ao radônio aumenta substancialmente o risco de câncer de pulmão. Isso reforça a importância de considerar prevenção ambiental e cessação do tabagismo como estratégias complementares.
Alguns aspectos ajudam a compreender essa relação:
- exposição cumulativa: quanto maiores a concentração e o tempo de exposição, maior pode ser a dose de radiação recebida pelos pulmões,
- concentração ambiental: a OMS estima aumento de aproximadamente 16% no risco de câncer pulmonar para cada elevação de 100 Bq/m³ na concentração média de radônio a longo prazo,
- tabagismo: fumantes expostos ao radônio apresentam risco significativamente superior devido ao efeito combinado desses agentes carcinogênicos,
- exposição residencial: estudos epidemiológicos mostram que mesmo concentrações encontradas em residências podem contribuir para o risco de câncer de pulmão.
O que dizem os dados epidemiológicos?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o radônio está relacionado a aproximadamente 3% a 14% dos casos de câncer de pulmão, dependendo do país.
Essa proporção varia conforme a concentração média nacional do gás e a prevalência do tabagismo, mostrando que o impacto populacional depende de fatores ambientais e comportamentais.
Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency (EPA) estima aproximadamente 21 mil mortes anuais por câncer de pulmão relacionadas ao radônio. Desse total, cerca de 2.900 ocorreriam entre pessoas que nunca fumaram.
A relação entre radônio e câncer de pulmão foi inicialmente identificada em trabalhadores de minas de urânio expostos a altas concentrações. Posteriormente, estudos realizados na Europa, América do Norte e China demonstraram que exposições residenciais mais baixas também estão associadas ao aumento do risco.
Segundo a OMS, a relação entre a concentração média de radônio a longo prazo e o risco de câncer de pulmão é aproximadamente linear. Isso significa que o risco aumenta progressivamente conforme cresce a exposição.
Um artigo publicado na Science of the Total Environment também analisou a relação entre duração, intensidade e histórico de exposição ao radônio, reforçando a importância de considerar o efeito cumulativo desse agente.
Esses resultados mostram que investigar apenas o histórico de tabagismo pode não contemplar todos os fatores ambientais relevantes para o risco individual de câncer de pulmão.
Como reduzir o risco e ampliar a conscientização?
A medição ambiental é a única maneira de determinar se uma residência apresenta concentrações elevadas de radônio, já que imóveis próximos podem registrar níveis bastante diferentes.
Quando valores elevados são identificados, diferentes intervenções podem reduzir a concentração interna. A escolha da estratégia deve considerar as características da construção, a origem predominante da entrada do gás e os protocolos técnicos adotados localmente.
A OMS recomenda que os países adotem programas de controle do radônio, protocolos de medição e medidas preventivas em novas construções.
Também indica um nível de referência residencial de 100 Bq/m³ e, quando esse valor não puder ser alcançado nas condições específicas do país, recomenda que não ultrapasse 300 Bq/m³.
No Brasil, pesquisas e iniciativas institucionais vêm avaliando a presença de radônio. A ampliação de dados residenciais e ocupacionais pode contribuir para compreender melhor a exposição da população e orientar estratégias de prevenção.
Incorporar o tema às discussões sobre qualidade do ar interno, construção civil, saúde ocupacional, controle do câncer e educação em saúde pode transformar um risco praticamente invisível em uma exposição mais conhecida e passível de redução.
Entre as principais medidas estão:
- medir os ambientes para identificar concentrações elevadas,
- melhorar a ventilação quando essa medida for adequada ao caso,
- vedar fissuras e outras possíveis vias de entrada do gás proveniente do solo,
- utilizar sistemas específicos de mitigação, como a despressurização do solo sob a construção,
- fortalecer políticas públicas de medição, prevenção e conscientização.
Prevenir o câncer de pulmão exige uma visão integrada. Combater o tabagismo permanece fundamental, mas reconhecer e reduzir exposições ambientais evitáveis também deve fazer parte dessa estratégia.7
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