Microbiota intestinal e imunoterapia: existe relação com a resposta ao tratamento?

Redação GBOT

21 de setembro de 2026

13:00

A microbiota intestinal reúne trilhões de microrganismos que vivem no trato gastrointestinal e participam de processos metabólicos, inflamatórios e relacionados ao funcionamento do sistema imunológico.

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se diferenças nesse ecossistema também poderiam influenciar a resposta do organismo aos tratamentos contra o câncer, especialmente à imunoterapia.

A questão ganhou relevância no câncer de pulmão de células não pequenas, ou NSCLC, porque pacientes com características aparentemente semelhantes podem apresentar respostas bastante diferentes aos inibidores de checkpoint imunológico.

Essa variabilidade reforça a busca por novos biomarcadores capazes de complementar os parâmetros utilizados atualmente. Nesse cenário, composição, diversidade e atividade metabólica da microbiota passaram a integrar uma nova frente de investigação.

O intestino, portanto, entrou nas discussões sobre oncologia de precisão. Entender essa conexão ajuda a compreender como a interação entre microbiota e sistema imunológico pode, no futuro, contribuir para prever respostas e desenvolver novas estratégias de tratamento.

 

O que é microbiota intestinal e por que ela importa na oncologia?

 

A microbiota intestinal corresponde ao conjunto de bactérias, vírus, fungos e outros microrganismos presentes no trato gastrointestinal, formando um ecossistema complexo e particular de cada indivíduo.

Esses microrganismos participam da manutenção da barreira intestinal, produzem metabólitos e interagem com células imunológicas. Dessa maneira, seus efeitos podem ultrapassar o intestino e repercutir sobre a resposta imunológica sistêmica.

Quando ocorrem alterações importantes na composição ou no funcionamento desse ecossistema, utiliza-se o termo disbiose. Essa condição é estudada em diferentes doenças inflamatórias e metabólicas e também ganhou espaço nas pesquisas sobre câncer.

Na oncologia, o interesse aumentou porque estudos encontraram associações entre determinados perfis microbianos e os resultados da imunoterapia em tumores sólidos, incluindo melanoma e NSCLC.

Entre os aspectos investigados estão:

  • diversidade e composição das comunidades bacterianas,
  • produção de metabólitos capazes de modular respostas imunológicas,
  • relação entre disbiose, inflamação e atividade antitumoral.

 

Essas associações, entretanto, não significam que exista uma composição única de microbiota capaz de determinar se um paciente responderá à imunoterapia. O ecossistema intestinal é influenciado por fatores como alimentação, medicamentos, idade, localização geográfica e condições clínicas.

 

Como a imunoterapia depende da resposta imune do paciente?

Os inibidores de checkpoint imunológico atuam sobre mecanismos reguladores utilizados pelo organismo para controlar a ativação das células imunes, mas que também podem ser explorados pelas células tumorais para escapar da resposta imunológica.

Medicamentos direcionados a PD-1, PD-L1 e CTLA-4 bloqueiam sinais inibitórios e favorecem a atividade de linfócitos envolvidos no reconhecimento e no ataque às células tumorais.

Essa estratégia transformou o tratamento do NSCLC avançado. Entretanto, algumas pessoas apresentam respostas duradouras, enquanto outras desenvolvem resistência primária ou apresentam progressão após um benefício inicial.

Por isso, pesquisadores buscam biomarcadores que possam complementar os utilizados atualmente, como expressão de PD-L1, características moleculares do tumor e, em contextos específicos, carga mutacional tumoral. A microbiota intestinal surge como mais uma possibilidade em investigação.

Alguns fatores avaliados nessa busca incluem:

  • características moleculares e imunológicas do tumor,
  • condições clínicas e medicamentos utilizados pelo paciente,
  • composição e diversidade da microbiota intestinal antes do tratamento.

 

A hipótese é que metabólitos e sinais produzidos pelas comunidades microbianas possam influenciar a ativação e a função das células imunológicas. Ainda é necessário, porém, determinar quais características são clinicamente relevantes e reprodutíveis em diferentes populações.

 

O que os estudos mostram sobre microbiota e resposta à imunoterapia?

Médico pesquisador em laboratório moderno

 

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na Frontiers in Oncology e disponível na National Library of Medicine reuniu 15 estudos clínicos sobre microbiota e imunoterapia em NSCLC, envolvendo 763 pacientes na análise relacionada à resposta aos inibidores de checkpoint imunológico.

Os trabalhos identificaram diferentes grupos bacterianos associados a resultados favoráveis ou desfavoráveis. Maior diversidade microbiana apareceu relacionada a benefícios em alguns estudos, mas os achados não foram uniformes entre as diferentes populações analisadas.

Também em 2025, pesquisadores avaliaram amostras fecais basais de 52 pacientes com NSCLC avançado antes da primeira linha de imunoterapia ou quimioimunoterapia, utilizando sequenciamento do RNA ribossômico 16S.

O estudo identificou diferentes grupos bacterianos associados à resposta, à sobrevida livre de progressão ou à sobrevida global, reforçando o potencial da microbiota como futuro biomarcador, embora ainda sem aplicação clínica estabelecida.

Entre os achados:

  • Ruminococcaceae apresentou associação com resposta ao tratamento,
  • Akkermansia foi associada à sobrevida livre de progressão,
  • diferentes grupos bacterianos apresentaram relações distintas com os desfechos, reforçando que não existe uma única “microbiota ideal”.

 

Outro estudo publicado em 2025 avaliou pacientes com NSCLC avançado e também encontrou diferenças na diversidade e na composição da microbiota entre grupos com respostas distintas ao tratamento.

Em conjunto, esses trabalhos sustentam uma associação biologicamente plausível entre microbiota e imunoterapia, mas ainda existe grande heterogeneidade entre métodos, populações e resultados. Isso dificulta estabelecer uma assinatura microbiana universal para utilização na rotina clínica.

 

Antibióticos podem interferir na eficácia da imunoterapia?

Antibióticos podem modificar significativamente as comunidades bacterianas intestinais. Por isso, pesquisadores investigam se sua utilização próxima ao início da imunoterapia poderia estar associada aos resultados oncológicos.

Estudos observacionais em NSCLC encontraram associação entre exposição a antibióticos e menor resposta ou sobrevida. Isso, entretanto, não comprova que o medicamento seja diretamente responsável pelos piores resultados.

O estudo prospectivo que avaliou pacientes com NSCLC tratados com inibidores de checkpoint também identificou menor resposta entre aqueles expostos a antibióticos.

Outros trabalhos encontraram alterações na composição da microbiota após o uso desses medicamentos, fortalecendo a necessidade de investigar como a exposição pode interferir no ecossistema intestinal e, potencialmente, na resposta imunológica.

Esses resultados precisam ser interpretados considerando possíveis fatores de confusão:

  • infecções podem indicar maior fragilidade clínica,
  • diferentes antibióticos produzem efeitos distintos sobre a microbiota,
  • momento, duração e motivo da prescrição podem influenciar os resultados.

 

Antibióticos continuam fundamentais quando existe indicação clínica. As evidências disponíveis não justificam evitar tratamentos necessários, mas reforçam a importância de combater a automedicação e o uso inadequado desses medicamentos.

 

Perspectivas futuras: a microbiota poderá guiar tratamentos?

Uma das possibilidades em estudo é utilizar características da microbiota como biomarcadores preditivos, combinando informações microbianas com dados tumorais, moleculares e clínicos para aperfeiçoar as decisões na oncologia de precisão.

Outra frente procura modificar o ecossistema intestinal. Dieta, prebióticos, probióticos e transplante de microbiota fecal estão sendo pesquisados, mas os resultados disponíveis ainda não sustentam sua utilização indiscriminada para aumentar a eficácia da imunoterapia.

O estudo FMT-LUMINate avaliou o transplante de microbiota fecal associado à terapia anti-PD-1 em pacientes com NSCLC, trazendo resultados iniciais que reforçam o interesse por essa estratégia.

Apesar dos sinais promissores, estudos desse tipo ainda envolvem amostras reduzidas. Ensaios maiores e controlados serão necessários para determinar benefícios, riscos, critérios de seleção dos pacientes e quais características microbianas realmente possuem relevância terapêutica.

Entre os principais desafios estão:

  • padronizar coleta, armazenamento e sequenciamento das amostras,
  • validar assinaturas microbianas em populações maiores e de diferentes regiões,
  • determinar segurança e eficácia das estratégias de modulação,
  • diferenciar associação estatística de verdadeira relação causal.

 

Por enquanto, não existe indicação rotineira para manipular a microbiota com o objetivo de melhorar a resposta à imunoterapia fora dos protocolos de pesquisa. O acompanhamento deve permanecer individualizado e orientado pela equipe assistente.

A relação entre intestino, sistema imunológico e câncer abre uma nova frente de investigação na oncologia. Transformar essas descobertas em ferramentas clínicas dependerá de estudos capazes de confirmar quais características da microbiota realmente ajudam a prever ou modificar a resposta ao tratamento.

Continue acompanhando os conteúdos do GBOT e fique por dentro das pesquisas que estão aproximando microbiota, imunoterapia e medicina de precisão da prática clínica.

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