O rastreamento de câncer tem se consolidado como uma das estratégias mais eficazes para reduzir a mortalidade e melhorar os desfechos clínicos em diferentes populações.
Sendo um problema de saúde global, câncer de pulmão é uma das principais causas de mortes por neoplasias em todo o mundo, tanto para homens quanto para mulheres.
No Brasil, segundo o Instituto Oncoguia, cerca de 30 mil novos casos da doença são diagnosticados anualmente.
Ainda segundo a entidade, cerca de 91% dos diagnósticos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são descobertos em estágios avançados, fator que reduz as chances de cura.
Por outro lado, a detecção precoce do câncer por meio de programas de rastreamento pode elevar consideravelmente as chances de sucesso do tratamento e reduzir efetivamente as taxas de mortalidade.
Nesse contexto, o rastreio surge como uma estratégia de saúde pública voltada à prevenção da doença e à promoção de diagnósticos mais precoces, permitindo intervenções menos invasivas e maior sobrevida dos pacientes.
Prossiga com a leitura para compreender a eficácia do rastreamento como medida preventiva e os desafios persistentes para sua implementação no Brasil.
O rastreamento de câncer de pulmão como medida preventiva essencial
O rastreamento de câncer é uma abordagem que permite a detecção do cancro antes do surgimento dos sintomas da doença.
Um exemplo bem comum desse rastreio é a mamografia, usada para a detecção do câncer de mama.
No caso de rastreamento de câncer de pulmão, a técnica mais utilizada é a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD).
Esse exame tem se mostrado eficaz na detecção do tumor em fase inicial, quando ele continua restrito aos pulmões, ou seja, não se espalhou, fase em que é facilmente tratável e com grandes chances de cura.
Uma revisão de 61 artigos científicos, publicada na Revista Científica Healthcare, demonstrou que o uso de TCBD reduziu em 20% a mortalidade por câncer de pulmão entre populações de alto risco, como fumantes ou ex-fumantes. Esse percentual pode chegar a 39% em casos de detecção de tumores em estágio inicial.
Apesar dos avanços científicos e da comprovação da eficácia do rastreamento precoce do câncer, o Brasil ainda enfrenta obstáculos significativos para transformar essa prática em uma política pública ampla e efetiva, principalmente pelas limitações estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Leia também: Biópsia líquida no câncer de pulmão, uma nova era no acompanhamento de pacientes.
Desafios do rastreamento de câncer de pulmão no Brasil
Embora os benefícios do rastreamento de câncer de pulmão sejam amplamente reconhecidos, o Brasil enfrenta barreiras importantes para sua implementação ampla e equitativa.
Essas barreiras envolvem questões estruturais, sociais, econômicas e técnicas que dificultam abordagens de prevenção mais precisas em larga escala.
Considerando os principais desafios do rastreamento do câncer no Brasil, destacamos:
Limitações do sistema de saúde
É importante lembrar que no Brasil, a Lei 14.758 de 2023 institui a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no Sistema Único de Saúde (SUS) e prevê a implementação da busca ativa de paciente dentro da área de abrangência da atenção primária à saúde.
Um dos principais desafios enfrentados pelo Brasil na implementação de programas de rastreamento de câncer, entre eles o de pulmão, está na limitação da capacidade operacional do SUS.
A disponibilidade de exames de imagem adequados, como a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD), ainda é restrita apenas aos grandes centros urbanos do país, dificultando o acesso de populações de regiões distantes e das menos favorecidas.
O país também enfrenta a ausência de protocolos clínicos nacionais padronizados, bem como a falta de estrutura e carência de profissionais capacitados para atuar na linha de cuidado voltada ao rastreamento de câncer de pulmão.
Nesse cenário, mesmo quando a detecção é realizada, a falta de uma estrutura bem definida acaba por atrasar o diagnóstico definitivo e o início do tratamento devido, fatores que acabam impactando diretamente a sobrevida dos pacientes.
Atualmente, transita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2550/24, que propõe novas diretrizes para a política de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de pulmão no SUS.
O objetivo é ampliar a detecção precoce da doença, melhorar a sobrevida dos pacientes e reduzir a mortalidade.
Essa proposta prevê a criação de um protocolo específico para grupos de alto risco, integrado ao programa de cessação do tabagismo e rastreamento por meio de tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD).
Barreiras econômicas e sociais
Outro desafio no rastreamento de câncer de pulmão no Brasil é a desigualdade socioeconômica do país, que influencia diretamente em programas de rastreio da doença.
Fato é que populações com menor renda e escolaridade têm menos acesso aos serviços especializados de saúde e, consequentemente, menor probabilidade de participar de programas de rastreamento.
Sem contar que as barreiras geográficas também dificultam a mobilidade para realizar exames, bem como a falta de campanhas informativas adequadas e de conscientização.
Questões técnicas e científicas
Embora a TCBD seja altamente sensível para detectar lesões pulmonares iniciais, sua especificidade não é precisa, podendo gerar falsos positivos ou identificar lesões benignas, levando a exames invasivos desnecessários.
Nesse contexto, os biomarcadores moleculares têm se mostrado ferramentas complementares eficazes no rastreamento de câncer de pulmão quanto ao prognóstico, grau de estadiamento, tratamento e acompanhamento.
Porém, requer infraestrutura laboratorial avançada e investimento público.
Sem contar que para garantir um rastreio seguro e eficaz, é essencial que os programas sejam baseados em protocolos clínicos validados.
É preciso definir quem realmente necessita realizar o rastreamento, com critérios claros de inclusão, como genética, idade, histórico de tabagismo e comorbidades.
Leia também: Genética do câncer: quem realmente precisa fazer rastreamento?
Perspectivas para tornar o rastreamento de câncer de pulmão uma política pública

Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e Estados Unidos se destacam como líderes mundiais na sobrevivência ao câncer. E todos eles têm em comum programas eficientes de rastreamento de câncer.
No Brasil, especialistas e legisladores têm discutido propostas para estruturar um modelo viável no SUS.
Projetos de leis destacam a importância e a necessidade da criação de políticas públicas que visem melhorias e ampliação da infraestrutura de rastreamento, diagnóstico e tratamento do câncer.
Nesse contexto, a adoção de tecnologias como inteligência artificial aplicada à interpretação de imagens também tem potencial para otimizar recursos e melhorar a precisão do diagnóstico.
É igualmente urgente expandir a estrutura diagnóstica do SUS com a aquisição de equipamentos de TCBD distribuídos equitativamente e capacitação técnica profissional.
Para combater uma das doenças mais letais do mundo, a criação de uma política pública de rastreamento de câncer é essencial. Essa iniciativa visa superar obstáculos estruturais, sociais e técnicos, promovendo um sistema de saúde mais eficaz e sustentável.
Agora, que tal continuar aqui no nosso blog para conhecer também os desafios no acesso à cirurgia oncológica no Brasil?




