COVID e gripe grave passaram a ser analisadas sob uma nova perspectiva pela ciência, especialmente quando evoluem com pneumonia viral severa, internação hospitalar ou inflamação pulmonar intensa.
Nos últimos anos, pesquisadores têm investigado não apenas os impactos imediatos dessas infecções respiratórias, mas também possíveis consequências de longo prazo para a saúde pulmonar. Entre os principais pontos de atenção está a persistência de alterações inflamatórias e imunológicas após a recuperação clínica.
Um estudo liderado por pesquisadores da University of Virginia (UVA) trouxe novos questionamentos sobre esse cenário. Segundo os cientistas, infecções respiratórias graves podem “reprogramar” células imunológicas presentes nos pulmões, criando um ambiente biologicamente mais favorável ao crescimento tumoral meses ou até anos após a infecção.
Isso não significa que toda pessoa que teve COVID ou gripe severa desenvolverá câncer de pulmão. O principal ponto da discussão científica está em compreender como episódios inflamatórios intensos podem deixar marcas persistentes no tecido pulmonar, especialmente em indivíduos que já possuem fatores de risco associados.
Além disso, a maior sobrevida de pacientes que enfrentaram quadros respiratórios graves também aumentou a necessidade de acompanhamento a longo prazo, permitindo que possíveis sequelas pulmonares sejam melhor compreendidas pela medicina.
Quer entender como infecções respiratórias severas podem impactar a integridade pulmonar e influenciar o risco oncológico? Continue a leitura.
Consequências da COVID grave para a saúde pulmonar
Casos graves de COVID podem provocar inflamação intensa, lesão no tecido pulmonar e alterações importantes no processo de reparo das áreas afetadas.
Esse cenário é mais comum em pacientes que evoluem com pneumonia extensa, queda na oxigenação, necessidade de suporte ventilatório ou internação em unidade de terapia intensiva.
Em parte dos pacientes, a recuperação não termina após a fase aguda da infecção. O pulmão pode permanecer em estado inflamatório prolongado, com ativação persistente de células imunológicas e remodelamento do tecido pulmonar.
O estudo CovILD, publicado na revista científica Radiology, observou que 54% dos pacientes acompanhados após pneumonia por COVID ainda apresentavam alterações pulmonares na tomografia de tórax um ano após a infecção, incluindo sinais persistentes de lesão pulmonar .
Além das alterações estruturais, alguns pacientes também apresentam redução da capacidade respiratória e sintomas persistentes, como fadiga e falta de ar, indicando impacto prolongado sobre a função pulmonar.
Esse contexto não significa que a COVID cause câncer de pulmão diretamente.
No entanto, inflamação crônica, estresse oxidativo, dano tecidual e desregulação imunológica podem tornar o microambiente pulmonar mais vulnerável, especialmente em pessoas com fatores de risco como:
- tabagismo,
- DPOC,
- fibrose pulmonar,
- exposição ocupacional a agentes tóxicos.
Efeitos de casos severos de gripe na inflamação e integridade pulmonar
Embora muitas vezes seja percebida como uma infecção respiratória comum, a gripe também pode causar lesões pulmonares relevantes quando evolui para quadros graves.
Entre as complicações mais associadas estão:
- pneumonia viral,
- síndrome respiratória aguda grave,
- hospitalização prolongada.
A influenza pode provocar danos ao epitélio respiratório e comprometer a integridade dos alvéolos pulmonares, estruturas essenciais para a troca gasosa.
Além do dano estrutural, infecções severas também desencadeiam inflamação intensa e aumento do estresse oxidativo no tecido pulmonar.
Esse processo favorece a produção de moléculas capazes de danificar células, proteínas e material genético, dificultando a regeneração adequada do pulmão após a infecção.
Outro fator relevante é que episódios repetidos de inflamação pulmonar podem contribuir para alterações persistentes no microambiente celular, especialmente em pacientes mais vulneráveis.
Esse ambiente de inflamação prolongada, associado ao reparo tecidual desorganizado, pode aumentar a suscetibilidade ao desenvolvimento de doenças pulmonares crônicas e favorecer mecanismos ligados à carcinogênese.
Isso não significa que a gripe provoque câncer de pulmão diretamente, mas ajuda a explicar por que infecções respiratórias graves vêm sendo estudadas como possíveis fatores associados ao risco oncológico.
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Mecanismos biológicos que ligam infecções respiratórias e carcinogênese

Infecções respiratórias graves, como COVID e gripe, podem manter o pulmão em um estado prolongado de inflamação e reparo tecidual.
Durante esse processo, o tecido pulmonar fica mais exposto ao estresse oxidativo, dano celular, alterações no DNA e falhas nos mecanismos de vigilância imunológica.
Uma revisão publicada na Frontiers in Molecular Biosciences aponta que o SARS-CoV-2 pode influenciar mecanismos relacionados à oncogênese, incluindo:
- inflamação crônica,
- alterações epigenéticas,
- mutações genéticas,
- possível reativação de células tumorais dormentes.
Além disso, pesquisadores investigam como alterações persistentes no sistema imunológico podem comprometer a capacidade do organismo de reconhecer e eliminar células anormais ao longo do tempo.
Esses mecanismos não comprovam uma relação causal direta entre infecções respiratórias e câncer.
Porém, ajudam a entender como determinados processos inflamatórios podem tornar o ambiente pulmonar biologicamente mais vulnerável, sobretudo em indivíduos que já apresentam fatores de risco prévios.
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Importância do monitoramento e prevenção em pacientes de risco
Pacientes que tiveram COVID ou gripe severas (especialmente com pneumonia, necessidade de suporte respiratório ou internação) devem receber acompanhamento clínico após a recuperação.
Esse cuidado se torna ainda mais importante em pessoas com fatores de risco para câncer de pulmão, como:
- tabagismo,
- DPOC,
- fibrose pulmonar,
- exposição ocupacional,
- poluição atmosférica,
- histórico familiar.
O monitoramento pode incluir avaliação clínica, testes de função pulmonar e exames de imagem, conforme indicação médica.
Sintomas persistentes como falta de ar, tosse contínua, dor torácica, perda de peso inexplicada ou alterações radiológicas merecem investigação cuidadosa.
Em grupos específicos, a tomografia computadorizada de baixa dose já é reconhecida como ferramenta de rastreamento para câncer de pulmão.
A U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda rastreamento anual para adultos entre 50 e 80 anos com histórico tabágico de pelo menos 20 maços-ano, que ainda fumam ou interromperam o hábito há menos de 15 anos.
Mais do que estabelecer uma relação direta entre infecções respiratórias e câncer, as evidências atuais reforçam a importância da vigilância individualizada e do acompanhamento contínuo.
Quando alterações suspeitas são identificadas precocemente, aumentam as possibilidades de diagnóstico em fases iniciais e melhores resultados terapêuticos.
Embora a relação entre infecções respiratórias graves e câncer de pulmão ainda demande novas investigações, os estudos atuais reforçam que COVID e gripe severas podem deixar impactos importantes sobre a saúde pulmonar.
Compreender esses mecanismos é fundamental para ampliar estratégias de prevenção, monitoramento e diagnóstico precoce em pacientes de maior risco.
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