Saúde cardiovascular e câncer de pulmão estão interligados por múltiplos mecanismos biológicos e fatores de risco compartilhados, representando um campo de crescente interesse científico e clínico.
O câncer de pulmão é atualmente o segundo tipo mais comum no mundo e a principal causa de morte oncológica, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Apesar dos avanços nas terapias oncológicas e da melhora nas taxas de sobrevida, novos desafios clínicos passaram a fazer parte do acompanhamento dos pacientes com câncer.
Entre eles, destacam-se as doenças cardiovasculares, as DCV, que representam a principal causa de morte na população mundial e também estão entre as determinantes de morbidade e mortalidade em indivíduos com câncer de pulmão.
Essa associação ocorre porque ambas as condições compartilham fatores de risco importantes, como tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade e envelhecimento.
Além disso, coração e pulmões funcionam como um sistema fisiológico integrado e alterações respiratórias podem influenciar diretamente a circulação e a oxigenação sistêmica, enquanto as DCV podem comprometer a função pulmonar e agravar o quadro clínico.
Essa realidade evidência a importância de uma abordagem de cuidado unificada, considerando que fatores de risco e mecanismos inflamatórios são frequentemente compartilhados entre o câncer de pulmão e a saúde cardiovascular, e que os tratamentos oncológicos (e seus efeitos recíprocos) impactam diretamente a condição cardiovascular do paciente.
Continue a leitura e saiba mais sobre a relação entre saúde cardiovascular e pulmonar.
A interconexão entre câncer de pulmão e saúde cardiovascular
A relação entre câncer de pulmão e saúde cardiovascular envolve múltiplos fatores de risco compartilhados, processos fisiopatológicos comuns e interações clínicas complexas.
O tabagismo é o principal exemplo. Segundo pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa condição é a causa de aproximadamente 80% dos casos de câncer de pulmão.
Conforme publicação da Johns Hopkins Medicine, a cada cinco mortes associadas ao tabaco, uma está relacionada a doenças cardiovasculares. Os fumantes apresentam de duas a quatro vezes mais risco de desenvolver doenças cardíacas comparados a indivíduos que não fumam.
Outro fator relevante é a inflamação sistêmica crônica, frequentemente presente em indivíduos expostos ao tabaco, poluição e envelhecimento. Esse estado inflamatório contribui tanto para a carcinogênese pulmonar quanto para o desenvolvimento de aterosclerose.
Estudos publicados em 2024 no Cureus Journal of Medical Science indicam que o próprio câncer de pulmão pode atuar como fator de risco para doença arterial coronariana (DAC).
Para os pesquisadores, essa associação pode ocorrer por fatores compartilhados, tabagismo e inflamação sistêmica, mas também por mecanismos relacionados ao câncer, incluindo um estado pró-trombótico que favorece eventos cardiovasculares.
Ainda segundo os estudos, alternativas como quimioterapia, radioterapia e algumas imunoterapias também podem contribuir para problemas do coração, reforçando a necessidade de monitoramento da saúde cardiovascular durante o tratamento oncológico.
Além disso, a inflamação associada ao tumor e aos tratamentos oncológicos pode acelerar processos vasculares e trombóticos, e as alterações pulmonares podem impactar diretamente a circulação e a oxigenação sistêmica, influenciando a saúde cardiovascular e os desfechos clínicos.
Mecanismos biológicos que conectam inflamação, aterosclerose e progressão tumoral
Diversos mecanismos moleculares explicam a conexão entre câncer de pulmão e saúde cardiovascular, especialmente aqueles relacionados à inflamação e à disfunção vascular.
A inflamação crônica desempenha papel central nesse processo. Citocinas inflamatórias, como interleucina-6 (IL-6), e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) podem estimular tanto a progressão tumoral quanto a formação de placas ateroscleróticas.
Estudos experimentais publicados na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology (AHA Journals) sugerem que as vias inflamatórias associadas à aterosclerose também podem favorecer o desenvolvimento e a progressão do tumor.
Além disso, pacientes com câncer apresentam frequentemente um estado pró-trombótico, caracterizado por maior ativação da coagulação e aumento do risco de eventos tromboembólicos.
Esses mecanismos demonstram a convergência de processos biológicos, aparentemente distintos, que impactam simultaneamente a progressão do câncer de pulmão e o estado da saúde cardiovascular.
Impacto dos tratamentos oncológicos na saúde cardiovascular

Além dos fatores de risco compartilhados, os próprios tratamentos do câncer podem influenciar diretamente a saúde cardiovascular dos pacientes.
A cardiotoxicidade associada a terapias oncológicas tem sido amplamente documentada na literatura médica. Quimioterápicos, imunoterapia e terapias-alvo podem desencadear complicações cardiovasculares que incluem:
- disfunção ventricular,
- insuficiência cardíaca,
- arritmias,
- eventos tromboembólicos,
- miocardite associada à imunoterapia.
Um estudo populacional publicado na Revista Científica Biomédica Aging mostrou que as comorbidades cardiovasculares são relativamente frequentes entre os pacientes oncológicos.
A pesquisa incluiu 710.170 pacientes oncológicos que foram acompanhados entre 1995 e 2018, sendo que:
- 13% deles apresentavam pelo menos um fator de risco cardiovascular, como hipertensão, diabetes ou dislipidemia,
- 5% já tinham doença cardiovascular estabelecida, incluindo insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio, fibrilação atrial ou acidente vascular cerebral,
- participantes com câncer de próstata, útero, rim, pâncreas, bexiga, sangue, colorretal, vesícula biliar e pulmão apresentaram maior prevalência de DCV.
Embora rara, a miocardite associada à imunoterapia é uma das complicações mais graves do tratamento oncológico, com potencial de alta mortalidade. E, paralelamente, terapias antiangiogênicas e agentes-alvo podem desencadear hipertensão e eventos trombóticos, aumentando o risco e exigindo acompanhamento contínuo da saúde cardiovascular.
Por esse motivo, diretrizes atuais enfatizam a importância da estratificação de risco cardiovascular antes do início da terapia oncológica, bem como o acompanhamento contínuo durante todo o tratamento.
Implicações clínicas e estratégias integradas de cuidado
Para otimizar os desfechos clínicos, é crucial adotar estratégias de cuidado que abordem de forma integrada as interconexões entre o câncer de pulmão e a saúde cardiovascular. A prevenção é o ponto de partida fundamental para essa abordagem.
A cessação do tabagismo, por exemplo, é uma das intervenções mais eficazes para reduzir simultaneamente o risco de câncer de pulmão e de DCV. Nesse sentido, campanhas de conscientização e programas de apoio para parar de fumar têm impacto significativo na saúde populacional.
Quando já diagnosticado o câncer, a avaliação cardiovascular deve fazer parte da abordagem inicial de pacientes oncológicos, especialmente daqueles com histórico de fatores de risco, como cigarro, obesidade, hipertensão ou diabetes.
Entre os meios mais utilizados na prática clínica estão:
- biomarcadores cardíacos, como troponina e BNP,
- ecocardiografia para avaliação da função ventricular,
- ressonância magnética cardíaca em casos selecionados,
- monitoramento clínico durante o tratamento.
O controle de fatores de risco tradicionais, como hipertensão, dislipidemia e sedentarismo, também contribui para preservar a saúde cardiovascular durante o tratamento oncológico.
Por fim, a integração entre oncologistas, cardiologistas, pneumologistas e outros profissionais da saúde tem papel central no cuidado desses pacientes.
Essa abordagem multidisciplinar permite identificar precocemente complicações, ajustar terapias e promover melhores resultados clínicos.
Agora que você conferiu que a saúde cardiovascular e a pulmonar compartilham conexões biológicas e epidemiológicas cada vez mais reconhecidas na literatura científica, que tal continuar a leitura para saber mais sobre a intrínseca relação entre DPOC e câncer de pulmão?




